Contos Novos, de Mário de Andrade

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Publicado em 1947, Contos Novos, de Mário de Andrade, reúne uma série de contos escritos ao decorrer da vida desse escritor, sendo que muitos deles foram produzidos em um período de crise pessoal de Mário de Andrade.

A obra foi publicada postumamente, ou seja, após a morte do autor, contudo, esse livro é aquilo que esse escritor possui de melhor na prosa, reunindo contos de uma maturidade artística pontuadas através do seu trabalho de depuração e estilística na escrita dos contos.

Chegando a ser considerado uma das obras em prosa curtas mais exímias daquela época, em relação às características inovadoras e modernistas. Mário de Andrade, com seu poder de narrativa sagaz e bem trabalhada, chega a fazer com que os seus contos cheguem até mesmo a serem comparados com os incríveis contos de Machado de Assis por muitos críticos literários. Fonte:

Esse livro faz parte da fase modernista da literatura brasileira, contudo, apesar de ter sido publicado na segunda fase do modernismo, os nove contos dessa obra apresentam-se com características da primeira fase do modernismo, pois foi escrita ao decorrer da sua vida, sendo alguns poucos contos escritos mais cedo, mas, em sua maioria, escritos nos últimos dez anos de vida do autor. Para sermos mais exato, pode-se caracterizar que os contos presentes neste livro estão diretamente influenciados pelas efervescências pós a Semana de Arte Moderna de 1922, marco inicial do modernismo no Brasil.

Os textos presentes na obra, apesar de apresentar-se através do frescor modernista, através da utilização de aspectos comuns desse movimento literário, foi estrategicamente trabalhados exaustivamente, escritos com muita paciência e cautela, fazendo com que os contos ficassem à beira da perfeição estilística e da concisão, fazendo-os lembrar muito o Parnasianismo. Dois bons exemplos disso é que o primeiro conto dessa obra foi feito em 1924, como também, outro conto dessa obra levou 18 anos para ficar pronto.

Além disso, os contos presentes nessa obra, apresentam outra característica modernista importante: os duelos entre o patriarcalismo e o progressismo e aspectos do processo de urbanização e industrialização de São Paulo, abordando a capital e cidades do interior, que ocorreu entre as décadas de 1920 a 1940. A utilização do fluxo de consciência que nos revela os pensamentos e a psique dos personagens dos contos também são outro ponto importante da fase modernista.

“Gostar, eu continuava gostando muito de Maria, cada vez mais, conscientemente agora. Mas tinha uma quase certeza que ela não podia gostar de mim, quem gostava de mim!… Minha mãe… Sim, mamãe gostava de mim, mas naquele tempo eu chegava a imaginar que era só por obrigação. Papai, esse foi sempre insuportável, incapaz duma carícia. Como incapaz de uma repreensão também. Nem mesmo comigo, a tara da família, ele jamais ralhou. Mas isto é caso pra outro dia. O certo é que, decidido em minha desesperada revolta contra o mundo que me rodeava, sentindo um orgulho de mim que jamais buscava esclarecer, tão absurdo o pressentia, o certo é que eu já principiava me aceitando por um caso perdido, que não adiantava melhorar.”

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Estrutura da obra

Contos Novos possui cerca de 100 páginas em sua primeira versão – podendo variar de acordo com a edição do livro – divididos em 9 contos.

  1. Vestida de preto
  2. O ladrão
  3. Primeiro de maio
  4. Atrás da Catedral de Ruão
  5. O poço
  6. Peru de Natal
  7. Frederico Paciência
  8. Nelson
  9. Tempo da camisolinha

Resumo da obra

Por se tratar de uma coletânea de contos, faremos um breve resumo sobre cada um deles a seguir:

1 – Vestida de preto

Neste conto, conhecemos Juca, narrador da história, que relembra sua aventura amorosa da infância com a prima Maria. Assim, o narrador relembra a emoção do primeiro beijo e das brincadeiras carinhosos que eles sempre teimavam em ser um casal. Juca lembra-se também que na adolescência, ele e Maria acabaram se afastando, devido a rebeldia do garoto que se transformou em garoto problema, fazendo com que Maria se afastasse do primo.

Contudo, quase ao fim da adolescência, mais ou menos na passagem para a vida adulta, a situação entre os dois se inverte: Juca passa a ser mais estudioso, esforçado e comportado, mas a moça agora acaba virando muito extrovertida e saideira, passando ser conhecido como muito namoradeira. No início da vida adulta, então, Maria acaba por conhecer um diplomata, casa-se com ele e acaba indo morar na Europa.

A tia de Juca, mãe de Maria, certa vez reclama com Juca dizendo que ele foi o motivo da Maria ter ido embora, pois nunca correspondeu o amor que a filha sentia por ele. Só assim Juca percebe que Maria sempre foi o amor da sua vida e que ele não soube ver isso, muito menos que Maria gostasse dele.

Depois de certo tempo, Maria retorna ao Brasil e Juca decide visitá-la, porém, o reencontro faz com que Juca confirme seus sentimentos pela prima, mas, junto a esse sentimento, também ressurgem outros sentimentos, como se Juca precisasse ser perfeito ou sempre buscar a perfeição para estar ao lado da prima, daí ele sempre o motivo deles nunca terem dado certo e, assim, Juca acaba apenas se limitando a cumprimentá-la, trocar meia dúzias de palavras numa conversa rápida, despedir-se secamente e ir embora.

2 – O ladrão

Nessa história, deparamo-nos com policiais e moradores de um bairro de operários perseguindo um ladrão pelas ruas, transformando esse acontecimento numa sucessão de fatos inusitados, descritos pelo narrador.

Assim, em meio a toda essa confusão, são observados pequenos fatos de toda aquela cena: homens corajosos a entrarem nas casas à procura do ladrão, homens menos corajosos que fogem ou se afastam do local alegando serem pais de família e que por isso não poderiam correr riscos, um policial a flertar com uma moradora do bairro, uma mulher muito bonita que recebe constantes visitas masculinas em casa quando o marido não está presente, alguns rapazes que discutiam com uma moça por ter dado um alarme falso acerco do ladrão, um violinista que está tocando valsa e sendo aplaudido na rua e outras pequenas situações que compõem o cenário desse conto que tenta capturar toda efervescência da cidade grande.

Ao final da história, ninguém encontra o ladrão, assim, aos poucos, todos os personagens vão se afastando e acabando com o tumulto por causa da busca pelo ladrão, seguindo então cada um para o seu caminho, restando apenas algumas poucas pessoas a esperarem no ponto do bonde a condução para irem de volta para casa.

3 – Primeiro de maio

Durante as comemorações do Dia do Trabalho, um carregador de malas número 35 da Estação da Luz, em São Paulo, decide-se por faltar o trabalho. Sendo assim, o carregador 35 decide acordar cedo e aproveitar o dia, pois aquela era uma linda manhã de sol. O personagem então começa a se barbear, coloca uma roupa elegante e sai para rua com a intenção de passear.

Entretanto, o carregador 35 não percebe o trajeto que faz durante a sua caminhada, assim, acaba por fazer o mesmo caminho rotineiro que faz todos os dias em direção ao seu trabalho. Durante o trajeto, percebe uma grande presença de policiais espalhadas pelas ruas, mas não liga, e acaba chegando à Estação da Luz para zombar de alguns companheiros de trabalho que decidiram trabalhar ao invés de comemorar o dia. Depois disso, ele caminha para uma praça, senta nela para descansar e passa a observar as pessoas.

Porém, com vergonha de mostrar que não ia fazer nada demais para alguns colegas de trabalham que ficavam olhando-o da Estação, decidiu por ir almoçar na casa de sua mãe. Depois do almoço, o carregador 35 decide passear mais um pouco, chegando até ao Palácio das Indústrias, onde estava acontecendo uma comemoração oficial do Dia do Trabalho, com muitas pessoas e muita polícia ainda ao redor.

Aparece uma pessoa dizendo para que todos entrassem para dentro do Palácio para continuarem a comemoração que contaria com discursos e mais outras coisas, porém, o carregador decide então seguir seu caminho e não entrar no Palácio. No final, ele se dirige novamente até a Estação da Luz e, entediado, acaba por se render e ir ajudar um colega de trabalha a carregar algumas malas.

4 – Atrás da Catedral de Ruão

Mademoiselle é uma mulher de quarenta anos que ainda é virgem, passando seus dias servindo como acompanhante para passeios e festas de mocinhas ricas de pais separados, pois, as mães dessas meninas confiam nela devido ela ser recatada e pura. Certo dia, as meninas que acompanhava, filhas de Dona Lúcia, contam a ela um episódio que aconteceu atrás da catedral francesa de Ruão, onde elas viram um homem numa atitude muito suspeita.

Mademoiselle fica muito indignada com o relato das meninas, contudo, ao mesmo tempo em que o horror da situação lhe perturbou, a mulher sentiu um desejo inexplicável por aquela história, o que a faz passar por trás da catedral todos os dias depois que saiu do trabalho em direção ao hotel em que vive.

Assim, certo dia, acredita estar sendo perseguida por dois homens após passar por trás daquela igreja de Santa Cecília, em São Paulo, chegando até a imaginar os dois homens a atacando e a violentando, chegando até mesmo a desejar isso por mais que ainda sentisse medo.

Entretanto, tudo não passou de uma coincidência de caminhos, ao perceber isso, Mademoiselle chega em frente ao seu hotel, espera os dois homes se aproximarem e lhes dá uma moeda como agradecimento pela companhia.

5 – O poço

Nesse conto, temos a história homens trabalhando num dia de chuva, eles estão construindo um poço na beira do rio Mogi a mando do patrão, um fazendeiro chamado Joaquim Prestes. Ao se aproximar do poço para examinar o trabalho, o fazendeiro acaba por deixar cair uma caneta dentro do poço, então, ele ordena que seus homens peguem sua caneta.

Contudo, devido à chuva, a terra está mole, o poço está se enchendo de água e o frio acomete a todos os trabalhadores, fazendo com que essa missão seja arriscada e nada fácil de se executar, porém, mesmo assim, o fazendeiro exige que seus homens recuperem a sua caneta. Albino, o funcionário mais magro de todos, obedece ao patrão, para o descontentamento e o desespero de seu irmão José, que teme um deslizamento de terra e lama devido à chuva.

Albino então entra no poço e procura a caneta, mas não consegue encontrá-la, porém, o patrão ainda insiste que ele continue as buscas. A chuva aumentava e tornava a busca ainda mais perigosa, sendo assim, José impede o irmão de continuar a procurar e o puxa do poço, dizendo que eles procurariam a caneta em outro dia, quando o tempo estivesse mais favorável, diante a isso, Joaquim vai embora revoltado.

Depois de dois dias, com o tempo melhor, a caneta enfim é encontrada, limpa e entregue ao fazendeiro que, por sua vez, ao receber a caneta repara que ela possui alguns arranhões e decida por jogá-la fora, atirando-a na lixeira a praguejar para, depois, seguir em direção da sua coleção de canetas, onde haviam inclusive canetas de ouro, e escolher uma outra para usar.

“Agora o vento soprando, chicoteava da gente não agüentar. Os operários tremiam muito, e a própria visita. Só Joaquim Prestes não tremia nada, firme, olhos fincados na boca do poço. A despedida do operário o despeitara ferozmente, ficara num deslumbramento horrível. Nunca imaginara que num caso qualquer o adversário se arrogasse a iniciativa de decidir por si. Ficara assombrado. Por certo que havia de mandar embora o camarada, mas que este se fosse por vontade própria, nunca pudera imaginar. A sensação do insulto estourara nele feito uma bofetada. Se não revidasse era uma desonra, como se vingar!… Mas só as mãos se esfregando lentíssimas, denunciavam o desconcerto interior do fazendeiro. E a vontade reagia com aquela decisão já desvairada de conseguir a caneta-tinteiro, custasse o que custasse. Os olhos do velho engoliam a boca do poço, ardentes, com volúpia quase. Mas a corda já sacudia outra vez, agitadíssima agora, avisando que o Albino queria subir. Os operários se afobaram. Joaquim Prestes abriu os braços, num gesto de desespero impaciente.”

6 – O peru de Natal

Nesta história, reencontramos Juca, o narrador do primeiro conto do livro, e agora conhecemos mais sobre a sua família. Assim, descobrimos que Juca ainda mora com sua mãe viúva, sua irmã mais velha e sua tia. O pai de Juca não gostava de comemorações ou celebrações de datas festivas, sendo assim, sua família também não era acostumada a comemorar tais datas.

Entretanto, Juca sempre quisera comemorar as datas como todas as pessoas que conhecia, então, aproveita o primeiro Natal após a morte do pai para aproveitar os festejos natalinos, tendo que vencer a resistência das mulheres da família que o criaram, pois, elas diziam que não estavam mais acostumadas a comemorar o Natal.

Mesmo assim, Juca prepara tudo e durante o jantar ainda faz questão de servir as três mulheres que o criaram, contrariando o gosto familiar, e esse gesto faz com que as três comecem a chorar. Por um instante, Juca chega a pensar que é por causa do seu gesto, porém, logo percebem que elas estão chorando devido a ausência do falecido.

Nesse instante, Juca percebe que se instaura uma luta entre o peru de Natal e o morto, elas nãos sabem se choram e lamentam pelo falecido ou se atacam o peru. Ele então decide animá-las ao dizer que o pai não se não gostaria de vê-las tristes, de que ele preferiria a alegria, o que na verdade é uma grande mentira.

Contudo, a frase surtiu efeito e, após conseguir deixá-las mais animadas, o rapaz diz que precisa ir à festa de um amigo e as deixa ali comemorando o Natal, mas a verdade é que ele ia encontrar com a namorada Rose.

7 – Frederico Paciência

Novamente nos deparamos com Juca que, nesse conto, narra um acontecimento da sua adolescência, falando sobre seu melhor amigo, Frederico Paciência, que fazia o trajeto de ida e volta da escola com eles todos os dias devido ao fato de morarem próximos. A amizade dos dois vai se tornando cada vez mais forte, ambos acabam ficando cada vez mais próximas, mesmo Frederico sendo de uma família rica e Juca de uma família pobre – o que causava certa vergonha e desconforto da parte de Juca devido a sua pobreza.

O laço de amizade entre os dois passa a ser então comentário de muitos outros colegas da escola, pois eles passaram a fazer quase tudo juntos. Certa vez, depois de alguns comentários maldosos, os meninos chegam ao ponto de até agredirem o colega, Frederico brigando uma vez e em seguida Juca também briga com o mesmo garoto. Então, para evitar falatório, Juca e Frederico deixaram de fazer alguns gestos de carinho que tinham um com o outro em público, como, por exemplo, os beijos no rosto que eles se davam ora ou outra.

No final da adolescência, os garotos descobrem o sexo e começam a se interessar por mulheres, Juca até mesmo começa o namoro com Rose nesse período. Contudo, devido à morte do pai de Frederico, a mãe do garoto decide mudar-se para o Rio de Janeiro junto ao filho. Assim, a amizade dos dois é desfeita, mesmo que eles trocassem cartas no começo, hábito que foi se perdendo com o tempo e, por ventura, acabou por afastá-los de vez.

Entretanto, depois de certo tempo, a mãe de Frederico também falece, Juca recebe uma carta onde Frederico contava os fatos e o convidava para o enterro, então, Juca fica secretamente feliz com a notícia, pensando até mesmo que a morte da mãe do amigo seria uma coisa boa, visto que os aproximaria novamente, sendo assim, ele decidir ir.

Porém, a mãe de Juca não permite que ele viaje até o Rio de Janeiro, além disso, ele não teria dinheiro para tal viagem, por isso, Juca acaba aceitando a situação e até mesmo ficando satisfeito em ter sido proibido de ir visitar o amigo, pois não sabia o que de fato era aquela amizade e nem onde ela levaria, portanto, estava satisfeito em deixá-la como estava.

8 – Nelson

Um grupo de amigos estão bebendo e conversando em um bar, então, entra um homem muito estranho no ambiente, o que chama a atenção desse grupo de amigos, que passa a falar sobre esse sujeito estranho. Um dos amigos, chamado Alfredo, diz conhecer o sujeito e saber de sua história, assim, passar a narrar a história do homem para os amigos. Explica-lhes que aquele homem é um fazendeiro do Mato Grosso que, certa vez, ao visitar o Paraguai, apaixonou-se por uma paraguaia com quem veio a casar, trazendo-a para vir morar com ele no Brasil.

Contudo, depois de certo tempo, a mulher começou a não se sentir feliz morando no Brasil, sendo assim, o esposo passou a comprar diversas revistas para que ela se distraísse e não ficasse pensando na sua terra natal. Neste momento, ao perceberem o homem esconde uma das mãos sob a mesa, interrompem a narrativa do amigo e começam a confabular as razões de ele esconder a sua mão.

Então, outro amigo disse que sabia o motivo disso e começa a contar que, segundo sua versão, aquele sujeito tem uma cicatriz horrível por ter perdido um dos dedos da mão e parte do braço num ataque de piranhas, tudo isso porque o homem estava se escondendo num cais durante uma das perseguições à Coluna Prestes, movimento político e militar da qual fazia parte.

Depois dessa interrupção, o primeiro amigo que começou a contar a sua história retoma a narrativa, dizendo que um dia, então, a esposa paraguaia do homem estranho resolveu voltar para a sua casa, deixando o país e indo para o Paraguai, mesmo com o marido insistindo para que ela não fosse.

Sem conseguir persuadi-la a ficar, o homem ficou desolado e seguiu para o seu quarto, lá encontrou um livro em castelhano que contava a história da Guerra do Paraguai na versão dos paraguaios, sendo que o texto do livro falava mal do Brasil e continha diversos ataques à nossa sociedade. Quando o amigo acabou a narrativa, o homem se retirou do bar e seguiu par sua casa, sendo que ao chega em frente dela, ele observa a rua e os arredores, verifica se está tudo deserto, antes de entrar e dar três voltas na chave da porta.

9 – Tempo da camisolinha

No último conto do livro, reencontramos o narrador Juca que, dessa vez, conta-nos um episódio da sua infância, quando foi obrigado a cortar o seu cabelo e perdeu os seus cabelos cacheados que tanto gostava, sendo submetido também a tirar uma foto com uma camisolinha branca, uma espécie de roupa infantil em moda na época que a mãe insistia que ele usasse aos quatro anos de idade. Lembra-se também que logo após isso sua família foi fazer uma viagem à praia, onde eles passavam todas as férias.

Nessa ocasião, Juca conviveu com vários operários e trabalhadores da região que estavam a construir um canal. Certo dia, um desses trabalhadores se aproxima do garoto e lhe presenteia com três estrela-do-mar diferentes (uma pequena com a ponta de uma pernas quebradas, uma média com alguns lascados e uma grande perfeitamente intacta), dizendo para que o garoto as guardasse porque elas traziam boa sorte.

O garoto fica muito feliz com o presente e se vê muito apegado às suas estrela-do-mar, passando a realmente acreditar que as estrelas lhe traziam muito boa sorte. Uns dias depois, Juca encontra outro operário que parecia estar muito triste, conversando com ele, o garoto descobre que aquele operário está passando por muitas dificuldades, assim, comovido com a história do operário, decide presenteá-lo com uma das suas estrelas para que ele tenha boa sorte.

Porém, mesmo com o impulso inicial de ajudá-lo, Juca passa por um dilema ao perceber que não queria se desfazer de nenhuma das suas três estrela-do-mar, vivendo então um dilema na hora de escolher quais das três que ele daria ao homem, sendo que sentia o mesmo amor por todas elas. Júlio então escolhe uma delas e com muita dor no coração corre pra praia aos prantos e entrega a estrela-do-mar ao operário dizendo que ela traria boa sorte e volta correndo para sua casa para chorar escondido.

“Foi quando um telegrama veio me contando que a Mãe de Frederico Paciência morrera. Não resistira à morte do marido, como um médico bem imaginara. É indizível o alvoroço em que estourei, foi um deslumbramento, explodiu em mim uma esperança fantástica, fiquei tão atordoado que saí andando solto pela rua. Não podia pensar: a realidade estava ali. A Mãe de Rico, que me importava a Mãe de Frederico Paciência! E o que é mais terrível de imaginar: mas nem a ele o sofrimento inegável lhe importava: a morte lhe impusera o desejo de mim. Nós nos amávamos sobre cadáveres. Eu bem que percebia que era horrível. Mas por isso mesmo que era horrível, pra ele mais forte que eu, isso era decisório. E eu me gritava por dentro, com o mais deslavado dos cinismos conscientes, fingindo e sabendo que fingia: Rico está me chamando, eu vou. Eu vou. Eu preciso ir. Eu vou.”

Notas sobre o Autor

Mário de Andrade é um dos principais nomes na liderança do movimento modernista brasileiro, que culminou na Semana de Arte Moderna de 1922, e uniu diversas vanguardas europeias com a construção de uma identidade artísticas nacional, utilizando-se assim de recursos do Brasil para modernizar a arte brasileira.

Esse autor soube coo ninguém romper com as tradições literárias brasileiras da época, batendo de frente com o Parnasianismo, ao aplicar em seus trabalhos novos princípios estéticos e revolucionários para traduzir a sociedade brasileira, em todos os aspectos, para uma realidade que era mascarada através dos trabalhos artísticos de outros países.

Contexto histórico

No contexto histórico-cultural, Contos Novos consegue captar toda a atmosfera de modificação da cidade de São Paulo, bem como de cidades do interior do estado e arredores da capital, do período em que se iniciou o processo de urbanização e industrialização do país. Além disso, também toca na questão de mudança da sociedade, os conflitos entre a geração patriarcalista e a geração progressista.

No contexto literário, a obra apresenta-se como uma que traduz aquilo tudo que o movimento modernista do Brasil sugere: uma reconstrução da identidade nacional através de uma literatura que não se preocupe com os recursos estéticos e parnasianos acima de tudo, assim, a obra passa a ter como foco principal a reprodução da sociedade brasileira de forma mais realista e sincera.

Análise da obra

Contos Novos mostra-nos tudo o que podemos encontrar na literatura de Mário de Andrade, pois essa obra é marcada pelo uso de marcas da oralidade, fluxo de consciência, linguagem simples e livre, crítica social, temática do trabalho, solidão, melancolia e memorialismo, com referências sobre a própria vida do autor.

A obra se apresenta em narrativas em primeira e terceira pessoa, sendo que as em primeira pessoa trazem sempre o mesmo personagem como narrador protagonista, o Juca. Esse personagem, Juca, é considerado como uma espécie de alterego do escritor, pois ele coloca muitos acontecimentos pessoais da sua vida na história dos contos desse personagem, o que dá um caráter memorialista à obra.

Os outros contos em terceira pessoa trazem protagonistas diferentes, contudo, todos eles trazem consigo os aspectos característicos da escrita do autor citados acima. Contudo, acima de tudo, todos eles apresentam questões acerca da sociedade paulistana na época, sendo mostrando as relações de trabalho, mostrando o conservadorismo de algumas gerações ou simplesmente falando de forma graciosa sobre a solidão das personagens.

Devido a esses motivos, Contos Novos é o que há de melhor na produção de prosa curta de Mário de Andrade, um dos principais autores do movimento modernista brasileiro, como também, um dos grandes da literatura brasileira.

“Eu chorava. As lágrimas corriam francas listrando a cara sujinha. O sofrimento era tanto que os meus soluços nem me deixavam pensar bem. Fazia um calor horrível, era preciso tirar as estrelas do sol, senão elas secavam demais, se acabava a boa sorte delas, o sol me batia no coco, eu estava tonto, operário, má sorte, a estrela, a paralítica, a minha sublime estrelona-do-mar! Isso eu agarrei na estrela com raiva, meu desejo era quebrar a perna dela também pra que ficasse igualzinha à menor, mas as mãos adorantes desmentiam meus desígnios, meus pés é que resolveram correr daquele jeito, rapidíssimos, pra acabar de uma vez com o martírio. Fui correndo, fui morrendo, fui chorando, carregando com fúria e carícia a minha maiorzona estrelinha-do-mar. Cheguei pro operário, ele estava se erguendo, toquei nele com aspereza, puxei duro a roupa dele:

— Tome! eu soluçava gritado, tome a minha… tome a estrela-do-mar! dá… dá, sim, boa sorte!…

O operário olhou surpreso sem compreender. Eu soluçava, era um suplício medonho.

— Pegue depressa! faz favor! depressa! dá boa sorte mesmo!

Aí, que ele entendeu, pois não me aguentava mais! Me olhou, foi pegando na estrela, sorriu por trás dos bigodões portugas, um sorriso desacostumado, não falou nada felizmente que senão eu desatava a berrar. A mão calosa quis se ajeitar em concha pra me acarinhar, certo! ele nem media a extensão do meu sacrifício! e a mão calosa apenas roçou por meus cabelos cortados.

Eu corri. Eu corri pra chorar à larga, chorar na cama, abafando os soluços no travesseiro sozinho. Mas por dentro era impossível saber o que havia em mim, era uma luz, uma Nossa Senhora, um gosto maltratado, cheio de desilusões claríssimas, em que eu sofria arrependido, vendo inutilizar-se no infinito dos sofrimentos humanos a minha estrela-do-mar.”

Até logo!

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