Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo

Olá, leitor!

Lira dos Vinte Anos é uma obra que marcou o ultrarromantismo, segunda fase da poesia romantismo, durante o período do romantismo no Brasil. Este livro também foi o responsável por colocar Alvares de Azevedo como o principal nome da segunda fase da poesia romântica brasileira, mesmo o autor tendo vivido apenas vinte anos.

O ultrarromantismo também é conhecido como “Mal do Século”, devido a visão pessimista acerca da vida, coo também, do amor, através de poetas que se apresentavam como angustiados, tristes e sonhadores, que sempre se diziam serem errantes e não pertencentes a esse mundo, bem como versavam sobre amores impossíveis ou platônicos, ao mesmo tempo em que prenunciavam a morte e os exageros de um amor tão intenso que era utilizado para levá-los a situações extremas de vida e morte.

Azevedo, sem dúvidas, é o maior poeta desta fase, sendo influenciado por diversos autores europeus dessa fase do romantismo, tais, como: Musset e Byron (o grande nome da segunda fase da poesia romântica no mundo). Fonte:

O Poeta e a confirmação

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“Meu pobre coração que estremecia,

Suspira a desmaiar no peito meu;

Para enchê-lo de amor, tu bem sabia.

Bastava um beijo teu!

Como o vale nas brisas se acalenta,

O triste coração no amor dormia:

Na saudade, na lua macilenta

Sequioso as bebia!

Se nos sonhos da noite se embalava

Sem um gemido. sem um si sequer,

E que o leite da vida ele sonhava

Num seio de mulher!

Se abriu temendo os últimos refolhos,

Se junto de teu seio ele tremia,

É que lia ventura nos teus olhos,

E que dele vivia!

Via o futuro em mágicos espelhos,

Tua bela visão o enfeitiçava.

Sonhava adormecer nos teus joelhos …

Tanto enlevo sonhava!

Via nos sonhos dele a tua imagem

Que de beijos de amor o recendia:

E de noite nos hábitos da aragem

Teu alento sentia!

Ó pálida mulher! se negra sina

Meu berço abandonado me embalou,

Não te rias da sede peregrina

Dessa alma que te amou.

Que sonhava em teus lábios de ternura

Das noites do passado se esquece;

Ter um leito suave de ventura…”

E amor… onde morrer!

Estrutura da obra

A obra em questão trata-se de uma antologia poética de Alvares de Azevedo, o grande nome do ultrarromantismo no Brasil, sendo que os melhores poemas desse escritor estão presentes neste livro.

Publicado em 1853, o próprio autor foi o responsável pela organização dessa obra, contudo, como Alvares de Azevedo morreu em 1852, o livro foi publicado postumamente, o que ajudou a atrair um pouco mais de atenção para essa obra que, nos dias de hoje, foi reeditada inúmeras vezes.

A obra contém em sua primeira face, intitulada Ariel, 33 poemas, além de um prefácio geral acerca do livro e uma dedicatória feita para a mãe do poeta. A segunda face, intitulado Caliban, possui 19 poemas, além de outro prefácio acerca daquela parte do livro. Contudo, dentro dessa classificação, existem três partes diferentes da poesia de Alvares de Azevedo, uma voltada para um romantismo comumente conhecido, outra voltada para uma produção poética mais irônica, sarcástica e até mesmo satanista, e uma terceira que está ligada diretamente com a primeira parte, contudo, possuindo traços da segunda, o que é considerado por muitos como uma mistura das duas.

Para ficar mais claro, pode-se dividir o livro da seguinte maneira:

1ª Face: Ariel

A primeira face do livro intitula-se Ariel, devido a personagem shakespeariana de A Tempestade, uma entidade mística que pode ser considerada como uma representação do bem durante a obra, pois em sua face estão os poemas de amor platônico, de carinho, da mulher e de Deus, trabalhados em questões extremamente sentimentais, enfatizando o romantismo e a melancolia.

No Mar

“Era de noite: – dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração,
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!

Ah! que véu de palidez
Da langue face na tez!
Como teus seios revoltos
Te palpitavam sonhando!
Como eu cismava beijando
Teus negros cabelos soltos!

Sonhavas? – eu não dormia;
A minh’alma se embebia
Em tua alma pensativa!
E tremias, bela amante,
A meus beijos, semelhante
Às folhas da sensitivas!

E que noite! que luar!
E que ardentias no mar!
E que perfumes no vento!
Que vida que se bebia
Na noite que parecia
Suspirar de sentimento!

Minha rola, ó minha flor,
Ó madresilva de amor,
Como eras saudosa então!
Como pálida sorrias
E no meu peito dormias
Aos ais do meu coração!

E que noite! que luar!
Como a brisa a soluçar
Se desmaiava de amor!
Como toda evaporava
Perfumes que respirava
Nas laranjeiras em flor!

Suspiravas? que suspiro!
Ai que ainda me deliro
Entrevendo a imagem tua
Ao fresco da viração,
Aos ais do meu coração,
Embalada na falua!

Como virgem que desmaia,
Dormia a onda na praia!
Tua alma de sonhos cheia
Era tão pura, dormente,
Como a vaga transparente
Sobre seu leito de areia!

Era de noite – dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração.”

No poema em questão, pode ser observado as características da primeira parte do livro Lira dos Vinte e Poucos Anos, pois se nota que a presença da mulher dormindo é contemplada pelo poeta com admiração e desejo, porém, ele permite que ela continue na tranquilidade do sono, sem incomodá-la ou tocá-la, por mais que deseje fazer isso.

Outra questão interessante é notar como a noite e o ambiente noturno é utilizado constantemente nos poemas do autor, neste caso, sendo um elo entre o sonho e o amor, bem como, também serve de diferença para contrastar com a palidez da mulher retrata, uma paralelo entre luz em sombras, ressaltando a mulher ao mesmo tempo em que enfatiza a paisagem sombria em que ela se encontra.

Como de costume, a temática da morte e a melancolia estão presentes, mesmo sendo um poema que fale de amor. A idealização da mulher, através de uma admiração platônica cheio de afetividade, pode ser notada também. Essas são as principais características do ultrarromantismo presentes neste poema.

Lembrança de Morrer

“Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
… Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade… é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade… é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,
Pouco – bem poucos… e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!”

Neste poema, que encera a primeira face do livro, podemos perceber a caracterização do romantismo exagerado que leva à morte, utilizando-se sempre do pessimismo, mesmo quando o poeta faz a exaltação de uma donzela virgem e idealizada, a menção onírica que permeia os seus sonhos e fantasias, bem como, a utilização da noite, das sombras e da lua para perpetuar os sonhos e a própria morte.

2ª Face: Caliban

A segunda face do livro intitula-se Caliban, devido também a outra personagem shakespeariana de A Tempestade, que, por sua vez, representa uma entidade que representa o mal, sendo que nesta face do livro estão presentes os poemas demasiadamente mórbidos, a versarem sobre cadáveres, vultos etc., com utilização de ironia, sarcasmo e extremo pessimismo, sempre ressaltando a tristeza e sentimentos ruins.

Lágrima de Sangues

“Ao pé das aras no clarão dos círios
Eu te devera consagrar meus dias;
Perdão, meu Deus! perdão
Se neguei meu Senhor nos meus delírios
E um canto de enganosas melodias
Levou meu coração!

Só tu, só tu podias o meu peito
Fartar de imenso amor e luz infinda
E uma Saudade calma;
Ao sol de tua fé doirar meu leito
E de fulgores inundar ainda
A aurora na minhalma.

Pela treva do espírito lancei-me,
Das esperanças suicidei-me rindo…
Sufoquei-as sem dó.
No vale dos cadáveres sentei-me
E minhas flores semeei sorrindo
Dos túmulos no pó.”

Neste poema, pertencente a segunda face do livro, podemos perceber a caracterização do romantismo mais irônico e sarcástico, às vezes com tom de humor, utilizando-se também do pessimismo e da tristeza, ainda se utilizando da morte, porém, com uma linguagem e elementos mais fortes, trocando alma por espírito, falando sobre o mundo terreno em vez de céu ou paraíso, falando sobre cadáveres, suicídio e outras temáticas que podem ser consideradas como marcas satanistas.

As três partes e as influências na obra de Alvares de Azevedo

As três partes dessas duas faces do livro Lira dos Vinte Anos, são caracterizadas pelas influências literárias de Alvares de Azevedo. Sendo elas:

1ª Parte: Musset e Lamartine

A primeira parte da obra é caracterizada através de poemas que se lembram muito a produção poética de Musset e Lamartine, que é marcada pela idealização da mulher e do amor, mesmo com a presença constante da temática da morte, além da utilização de elemento e/ou figuras de caráter religioso, além de se perpetuar em situações de devaneios oníricos, ou seja, sonho ou fantasia.

2ª Parte: Lord Byron

A segunda parte da obra é caracterizada através de poemas que se lembram muito a produção poética de Lord Byron, que é marcada por poemas de temáticas mais sombrias, utilizando-se sempre do pessimismo, da melancolia e da tristeza, mesclado a uma morbidez com tons de ironia, humor negro e uma linguagem que chega próximo ao escárnio, considerado uma verve do romantismo exótico, mórbido e meio satânico de Byron.

3ª Parte: Mistura da primeira e da segunda parte

A terceira parte da obra é caracterizada através de poemas que se misturam entre as duas influências descritas anteriormente (apesar de ser mais bem semelhante com a primeira parte do que com a segunda), ou seja, uma mistura de versos que vão desde o amor idealizado, sonho e fantasia até os mórbidos e mais sombrios. Contudo, nesta parte, também há muito humor e ironia envolvidos, muitos dos poemas se tratando não apenas do amor, mas também, sobre o ato de escrever, o que caracteriza bastante questões de metalinguagem.

A Minha Desgraça

“Minha desgraça não é ser poeta,

Nem na terra de amor não ter um eco,

E meu anjo de Deus, o meu planeta

Tratar-me como trata-se um boneco…

Não é andar de cotovelos rotos,

Ter duro como pedra o travesseiro…

Eu sei… O mundo é um lodaçal perdido

Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro…

Minha desgraça, ó cândida donzela,

O que faz que o meu peito blasfema,

É ter para escrever todo um poema

E não ter um vintém para uma vela.”

Até logo!

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